Sobre a indiferença ou a paixão pelos outros…

O que é mais proveitoso — perguntava eu — representar o mundo como pequeno ou como grande? Vejamos como eu resolvia o assunto: os homens eminentes, os capitães famosos, os estadistas competentes, em suma, todos os conquistadores e todos os chefes que se elevam pela violência acima dos outros homens, devem ser feitos de tal maneira que o Mundo lhes deve parecer como um tabuleiro de damas. Se assim não fosse, eles não teriam a rudeza e a impassibilidade necessárias para subordinarem audaciosamente aos seus imprevisíveis planos a felicidade e os sofrimentos dos indivíduos isolados, sem se importarem nada com isso. Em contrapartida, uma tão limitada concepção pode levar os homens a não realizarem coisa alguma, porque todo aquele que considera a humanidade como uma coisa sem importância acabará por a achar insignificante e por soçobrar na indiferença e na passividade. Desdenhoso de tudo, preferirá a inércia à acção sobre os espíritos, sem contar que a sua insensibilidade, a sua ausência de simpatia e a sua letargia chocarão toda a gente, ofendendo constantemente um mundo imbuído do seu próprio valor. Assim se lhe fecharão todas as vias de um sucesso imprevisto. Será mais razoável — perguntava eu, então — ver na humanidade qualquer coisa de grande, de magnífico e de importante, digna de todos os zelos e de todos os esforços, tendentes a adquirir consideração e estima? Objectar-me-ão que esta concepção amplificadora e respeitosa implica uma certa depreciação de si mesmo, uma espécie de mal-estar, e que o Mundo se afastará, sorrindo, do rapaz ingénuo e deferente para procurar adoradores mais viris. Por outro lado, uma tal confiança e um tal fervor oferecem vantagens consideráveis. Com efeito, quem concede grande importância às coisas e aos seres sabe de antemão que eles lhe serão gratos pela sua opinião lisonjeira. Além disso, os seus pensamentos e o seu comportamento impregnar-se-ão duma seriedade, duma paixão e de um tal sentimento de responsabilidade que, tornando-o ao mesmo tempo um homem amável e importante, o poderão levar aos sucessos e às façanhas mais insignes.

Thomas Mann in “As Confissões de Félix Krull”

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