Procurar a morte ou sobreviver?

A morte, por ser temida, é sempre um tema tabu. É como o cancro. As pessoas não querem ouvir falar de cancro, fogem, ignoram sintomas… Com medo do monstro, com medo da morte, com receio de que a doença lhes tire a dignidade de serem seres humanos.

Defendo a eutanásia ou a morte medicamente assistida para aqueles que, com lucidez, queiram partir e começar um novo caminho. Para aqueles que ao sofrerem de doenças incuráveis e incapacitantes queiram libertar-se de um sofrimento que, mais que físico, é psicológico.

Quem nunca teve um ente querido que face a uma doença incurável, sem qualquer tipo de alternativa, escolheria partir se tivesse essa possibilidade? Não é, de todo, uma decisão que se tome de ânimo leve, mas sim de forma consciente. Não é ser-se egoísta. Para isso estamos cá nós, aqueles que querem ajudar sem terem como o fazer, aqueles que, por egoísmo, preferem que a pessoa fique ao seu lado única e exclusivamente pela importância que dão à sua presença.

Mas será que esta presença que se quer impor é correcta? Quem somos nós para impedir uma tomada de decisão de quem espera, mais tarde ou mais cedo, pela morte e que pretende que este destino, certo desde que nascemos, aconteça de forma digna e sem dor?

Mas não sou fundamentalista. Não acho que a eutanásia seja para toda a gente.

Chama-se José Martins, sofre de paramiloidose, e escreveu, até agora, o único comentário ‘contra’ a eutanásia depois da reportagem que ontem passou na TVI, «O céu visto da Terra» um excelente trabalho de Ana Leal. O comentário de José Martins, contudo, fez com que repensasse e olhasse para os doentes crónicos, com patologias incuráveis e progressivamente incapacitantes, com outros olhos.   «Não tenho medo da morte, mas sim de perder a vida.» Esta frase que serviu de título para o comentário, fez com que lesse aquilo que José Martins escreveu e do qual destaco:

«Não é fácil falar da (eutanásia), porque eu quero viver, sinto falta de viver a vida intensamente mas já não é-me possível.»

Nem todos desistem de lutar, de tentar (sobre)viver apesar de todas as condicionantes impostas pelas doenças que sofrem. Daí que lamento que Portugal ainda não tenha todos os meios suficientes para uma boa e ampla prestação de cuidados paliativos.

Sim, defendo também os cuidados paliativos. Os mesmos cuidados que, em Portugal, são ainda escassos e insuficientes para as necessidades e que são transversais à idade já que a doença terminal atravessa todas as faixas etárias, incluindo  a infância. Os mesmos cuidados que ainda têm um longo caminho a percorrer para que as pessoas consigam (sobre)viver com dignidade com a sua doença.

Enfim, eutanásia e cuidados paliativos. No fundo, o que falta verdadeiramente é a capacidade de dar aos doentes portugueses os meios para que com dignidade possam morrer ou viver…

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